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Transparência é essencial

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Transparência é essencial

Embora ultimamente não venha atraindo tantos holofotes como as outras resinas termoplásticas, que têm recebido vultosos investimentos por parte da indústria petroquímica, o policloreto de vinila, mais conhecido pela sigla PVC, não se encontra estacionado quanto aos seus desenvolvimentos. Principalmente no segmento de embalagens, no qual vem conseguindo, numa quietude estratégica, se expandir em searas como a de cosméticos.

A prova da importância dessa resina, aliás, é o fato de ela contar com uma entidade de classe só para si, e não atrelada a assuntos comerciais. Fundado em 1997, o Instituto do PVC tem a missão de cuidar da imagem do material, fomentando sua reciclagem e esclarecendo polêmicas que surgiram em torno de sua segurança à saúde pública e ao ambiente. Quem fala sobre elas, e também das perspectivas para o PVC nas aplicações em embalagens, é o engenheiro químico Miguel Bahiense Neto,  diretor adjunto do Instituto. "Há um grande espaço para o PVC crescer em embalagens", assevera o profissional.

Nas décadas de 80 e de 90, o PVC foi alvo de diversas contestações, as quais alegavam que o material seria danoso ao ambiente e potencialmente perigoso para a saúde pública, por conter substâncias tóxicas e até cancerígenas. O que há de verdade nessas argumentações?

Essas afirmações são lendas. Acontece que existem muitas ONGs ambientalistas radicais e extremistas que acreditam que o mundo moderno não precisa da indústria petroquímica. O PVC é um importante setor dessa indústria, então elegeram-no como um alvo. Se o PVC fosse banido, certamente esses grupos elegeriam o PET, o polipropileno e as outras resinas como novos alvos, pois elas são outros segmentos da petroquímica. O curioso é que o PVC é justamente um plástico diferente dos demais, pois ele não é feito 100% de petróleo. Ele contém uma fração significativa, de 57%, de cloro, derivada da água do mar, um recurso natural inesgotável. Portanto, o PVC é até interessante sob o ponto de vista ambiental. Temos que deixar claro: na forma pura, o cloro traz problemas ambientais e de toxicologia. Contudo, não há produto final com cloro em sua forma elementar, que é a danosa. Como o PVC em sua forma pura (resina) não tem utilidade industrial, ele exige aditivações para ser trabalhado, alardeou-se que os aditivos utilizados no processamento do material, como os plastificantes, seriam tóxicos e desenvolveriam câncer, pois correu uma notícia de que ratos foram assim afetados. Só que a ciência tem demonstrado outra coisa. O caso dos roedores é ligado exclusivamente ao comportamento de seu metabolismo, e outras espécies, incluindo o homem, não reagem de modo igual.

É possível garantir, então, que o PVC é um material inócuo...

Exato. Diversos estudos vêm demonstrando que o PVC é um material seguro. No caso de embalagens, não há qualquer risco de haver migrações de substâncias tóxicas da embalagem de PVC para o produto acondicionado. Para se ter idéia, o PVC é o plástico mais utilizado em produtos médico-hospitalares - bolsas de sangue, de soro e de glicose, cateteres, tubos, bolsas de coleta de urina etc. Numa UTI, geralmente o forro e o piso são de PVC. Então, quem regulariza o acondicionamento de água potável ou de alimentos em PVC não são as ONGs, são órgãos sérios, como o FDA americano, as agências sanitárias européias e as brasileiras. Hoje, não há qualquer tipo de restrição ao uso do PVC.

Esses estigmas prejudicaram o desempenho do material nas aplicações em embalagens? Ficaram seqüelas dessa polêmica?

Claro que nunca é bom ter alguém brigando contra sua imagem. Evidente que não podemos dizer que essa cruzada foi indiferente ao PVC. O Instituto, inclusive, foi fundado para trazer a ciência à luz desse debate. E, nesse sentido, acho que a polêmica trouxe um ponto interessante, que é a idéia de que o setor deve sempre evoluir em termos de consciência ambiental, de desenvolvimento sustentado. Os ataques ao PVC na década de 80 fizeram com que a indústria se preparasse, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, pois no Brasil esses ataques chegaram depois, em meados da década de 90. Falando de embalagens, não credito a esse debate os movimentos de mercado relativos ao PVC. Assim como um dia o PVC deslocou o vidro na área médica - pois o vidro dependia de processos problemáticos de esterilização e o PVC, descartável, ofereceu propriedades interessantes -, o PVC perdeu participação em alguns mercados. Mas tende a ganhar em outros.

Num cotejo com as propriedades das outras resinas termoplásticas - que, aliás, parecem ser hoje as maiores concorrentes do PVC em embalagens - quais seriam os principais atributos positivos desse material na confecção de embalagens?

O PVC é um plástico altamente versátil. Primeiro, ele possibilita produtos com alta transparência. Nesse quesito, o PVC e o PET são campeões. Com uma aditivação específica, o PVC pode aliar essa alta transparência a uma barreira contra os raios ultravioleta, que degradam produtos. O PVC também propicia uma liberdade muito grande no trabalho de design de embalagens, o que é um chamariz para o mercado de cosméticos, por exemplo. Um grande custo num desenvolvimento de embalagem é o do molde, e o PVC tem um custo de molde bastante competitivo, o que permite que as empresas estejam sempre up-to-date com as tendências da moda, numa freqüência significativa, evitando que o consumidor se canse. Em embalagens nas quais você queira uma alça, essa alça pode ser transparente e vazada, com produto em seu interior, e nesse aspecto o PVC é a única ou uma das únicas resinas que permitem isso.

Falando especificamente de embalagens, em quais situações o PVC se mostra mais competitivo?

O PVC é altamente competitivo em produções de menores escalas. Nesses casos, o custo unitário por embalagem é bastante competitivo, diferentemente do que acontece com as resinas nas quais você precisa ter partidas altíssimas para o custo se tornar compensador. Esse apelo, por outro lado, foi um dos grandes problemas do PVC na área de águas minerais, na qual o material perdeu muito mercado.

Essa queda de participação no mercado de águas parece ter sido um grande baque para o material...

Não há dúvida. O mercado de águas minerais era um dos mais importantes para o PVC. Ocorre que houve um grande estouro desse mercado na década de 90 no Brasil, que fez o país se tomar um dos maiores produtores mundiais de água mineral. Para altíssimas produtividades, da mesma forma como acontece com os refrigerantes, o PVC acaba sendo menos competitivo. É por isso que o PET, com suas máquinas de altíssima produtividade, cresceu na esteira dessas bebidas. O PVC é bastante competitivo quando em baixas, médias e até em altas produtividades, raias nas quais ele tem como apelo a possibilidade de trocas constantes de molde, mas não em altíssimas.

Ultimamente o mercado de cosméticos vem sendo um especial alvo das embalagens de PVC. É um mercado promissor para o material?

Bastante. O PVC tem potencial de crescimento muito grande nessa área, especialmente em xampus, condicionadores e perfumes, pelas possibilidades de garantir versatilidade no design e trocas fáceis de molde, como já expus. Para esses produtos, outro apelo é a transparência ou a pigmentação fácil das embalagens. Tudo isso atende as necessidades do usuário de embalagens e as do consumidor, que não querem embalagens feias para produtos que em tese devem embelezar. Merecem lembrança, ainda para cosméticos, os cartuchos feitos de chapas de PVC, que oferecem vantagens em relação aos feitos com outros plásticos, como melhor estruturação e melhor qualidade de impressão, e que estão sendo trabalhados por empresas como a Rigesa.

O senhor também vislumbra potencial de crescimento em mercados que já se tornaram cativos do PVC, como filmes para envolver alimentos e blisters para medicamentos?

Sim. Acho que dá para crescer em filmes para alimentos, apesar das investidas das poliolefinas. Quanto aos medicamentos, os blisters para comprimidos são um mercado cativo, porém acredito que haja potencial para o PVC participar em frascos, como alternativa ao vidro. Outros segmentos importantes para o PVC são o de filmes stretch para processos logísticos e um de pouca visibilidade, porém importante, é o de produtos automobilísticos. Sempre me vem à cabeça os frascos de PVC que a Bardahl utiliza para seus aditivos e lubrificantes, que têm um pescoço alongado, funcional para a utilização desses itens. Não acredito que o PVC deixará de ser soberano nessas aplicações cativas, pelo menos num médio prazo.

Um mercado recente e que igualmente parece promissor para o PVC é o de rótulos termocontráteis. No entanto, outros materiais plásticos estão se movimentando para explorá-lo...    

Não há dúvida, e isso mostra como a indústria de PVC evolui para melhor atender o mercado. Os rótulos de PVC se assentam muito bem às embalagens e permitem impressão fácil e com qualidade. Com relação ao assédio de outras resinas plásticas, consideramos isso uma ameaça saudável. Vale dizer que também temos visto o PVC crescer em embalagens promocionais, como sacolas para kits de produtos, e em embalagens que viram brinquedos, especialmente em xampus.

Os usos em construção civil, fios e cabos e calçados ainda parecem responder pelo maior escoamento do PVC no país. De acordo com os dados mais recentes que o Instituto possui, qual a divisão da participação do material em termos de aplicações?

Algo em tomo de 64% é destinado ao segmento de construção civil, que engloba tubos, perfis, forros, fios e cabos e outros produtos. Desse número, só os tubos e conexões já respondem por cerca de 53%. O mercado de embalagens atualmente tem por volta de 7% a 8% do bolo. Em 1997, quando da fundação do Instituto, as embalagens respondiam por 5% do escoamento total do material. Esse crescimento do share das embalagens, ainda que contido, é verdade, se deve ao crescimento do uso do PVC em embalagens de cosméticos, em filmes para rótulos termocontráteis e em lacres de segurança. No caso específico de uma divisão de bolo nas aplicações em embalagens, infelizmente ainda não possuímos levantamentos precisos.

Como os outros materiais termoplásticos, o PVC é passível de reciclagem. Qual vem sendo o desempenho da reciclagem de PVC no país e qual a participação desse material no lixo urbano brasileiro?

Damos, no Instituto, muita importância à questão da reciclagem. Estamos em contato permanente com recicladores e fizemos algumas parcerias com comunidades, como na Riviera de São Lourenço (SP) e em Santo André, para estimular a separação do material e garantir melhor aproveitamento na reciclagem. Um grande problema, principalmente em embalagens, é a identificação correta de cada plástico, o que dificulta a coleta seletiva. Geralmente, o reciclador recebe levas de plásticos misturados. Isso diminui o valor do processo, já que o reciclador de PVC quer somente o PVC, e não outros materiais, e ainda tem que contratar mão-de-obra para separar o material. Não temos um dado recente sobre a reciclagem específica do PVC, até porque, no grosso das aplicações, o PVC é formulado para uma vida útil de 20 anos, 40 anos. Porém, acompanhamos a atividade dos recicladores, e constatamos que ela vem crescendo na faixa dos 17% ao ano. Apesar de ser um dado restritivo, ele serve como parâmetro. Quanto à participação do PVC no lixo urbano brasileiro, os últimos dados informam que o material responde por 0,6%, em peso, do total do lixo aparente no país.

Fonte: Embalagem Marca - Entrevista,
Ano VI,
nº 54, Fevereiro 2004.


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