Fica em Santo André o primeiro CDP (Centro de Detenção
Provisória) da Grande São Paulo que oferece trabalho aos presos. Um grupo
de 34 presos, de um total 1,2 mil, trabalha com aparas de PVC para
confecção de vivo – material usado na emenda da costura de bolsas – e a
partir desta semana, eles passarão a operar uma linha de produção de
sacolas plásticas feitas a partir de material reciclável.
Dentro do CDP, a contrapartida para os presos-operários será a mesma que
já é praticada nas penitenciárias no interior do Estado: cada três dias
trabalhados, um dia a menos na pena. Além de encurtar o tempo na cadeia,
os presos também receberão em dinheiro uma espécie de salário. O valor vai
depender da produção dentro do CDP. No complexo de Santo André, a cifra
pode girar em R$ 1,5 mil – divididos entre os 34 presos.
Com isso, cada dentento receberá ao fim do mês pouco mais de R$ 44. Mas
isso depende do ritmo de produção de sacolinhas. O ganho é baseado no
funcionamento a todo vapor das máquinas, que tem capacidade de, ao fim de
um dia de serviço das 8h às 16h, confeccionar 1,2 mil quilos de sacos
plásticos. Há cerca de um mês, os presos estão passando por treinamento,
com as aparas de PVC, para otimizar o trabalho.
Apesar de ser pioneira na Grande São Paulo, a iniciativa já rende bons
frutos no interior, no CDP de Sorocaba. Até então, o complexo era o único
do gênero no Estado a oferecer trabalho aos presos (leia texto nesta
página). O resultado obtido por lá é o mesmo que a diretoria do CDP de
Santo André espera alcançar. “Os presos querem se ocupar e o serviço é uma
boa saída para todo mundo. Eles diminuem a pena, recebem um dinheirinho. E
enquanto trabalham, não pensam em rebelião”, afirma o diretor do CDP, Ruy
Fonseca.
Em Santo André, só os presos da ala D do CDP trabalham na produção de
sacos. São os presos do seguro – “mais calmos”, como classifica o diretor
– que caso sejam misturados com o resto da massa carcerária, correm risco
de morte. São travestis, informantes, laranjas. Enfim, “gente que não é do
crime”. “Com os outros é mais difícil trabalhar. A turma é brava, não
aceita”, justifica Ruy Fonseca.
Entre os “calminhos” que pegaram no batente está um ex-vendedor de carros
de 41 anos, preso em fevereiro do ano passado em São Bernardo sob a
acusação de ter participado do seqüestro de um corretor de comércio
exterior, que foi mantido por oito dias dentro de um cativeiro. Além do
ex-vendedor de carros, outros nove foram presos pelo crime. Até um fuzil
AR-15, famoso nos morros cariocas, foi achado com o bando.
“Entrei de laranja nessa história e logo serei solto. Vou sair pela porta
da frente, de cabeça erguida”, afirma o ex-vendedor, que a pedido da
direção do CDP teve a identidade preservada. O trabalho dele começou
antes. O ex-vendedor ajudou na construção do galpão onde a linha de
produção será instalada, em um prédio anexo ao local da triagem de novos
presos e onde recebem atendimento jurídico.
“Aqui dentro já fiz de tudo um pouco. Do telhado ao piso”, diz. O destino
do dinheiro que ganha é o mesmo dado pela maioria dos outros presos: é
entregue para a família. “É como posso ajudá-los daqui”, afirma o
ex-vendedor.