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Reciclagem: Indústria dribla as dificuldades

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Reciclagem: Indústria dribla as dificuldades

Discursos inflamados e bem intencionados há anos discutem uma fórmula capaz de impulsionar a indústria de reciclagem do plástico no País. Porém, muito se reivindica e, na mesma proporção, mas inversa, pouco se faz de forma efetiva para fortalecer esse mercado. Os problemas são velhos conhecidos dos profissionais do setor. A luta contra a tributação do plástico reciclado e a escassez de programas de coleta seletiva não são nenhuma novidade.

Mesmo assim, a indústria brasileira de reciclagem de plástico avança. De acordo com dados da comissão executiva do programa Plastivida, da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), hoje são reciclados 17,5% do total de resíduos sólidos pós-consumo. "O índice de reciclagem do plástico não é tão baixo quanto se tem conhecimento", constata a assessora técnica da Plastivida Silvia Piedrahita Rolim. O potencial desse mercado é bem extenso. Segundo estimativas da instituição, a capacidade instalada da indústria de reciclagem do plástico alcança cerca de 310 mil toneladas/ano e movimenta, em valor de produção, R$ 200 milhões.

Embora satisfatório, trata-se de um numero subestimado, pois se refere apenas aos estados pesquisados pela Plastivida (São Paulo, Rio Grande do SuI, Rio de Janeiro, Bahia e Ceará), em programa de mapeamento da indústria nacional de reciclagem do plástico (ao todo foram avaliadas 341 empresas).Acompanhando a indústria brasileira de plástico, hoje responsável pela fabricação de 3,7 milhões de toneladas anuais de resina, a reciclagem no Brasil ainda engatinha. Para se ter uma idéia, o consumo per capita do brasileiro é da ordem de 20 quilos de plástico ao ano, enquanto na Europa e nos Estados Unidos esses números saltam para 90 quilos e 110 quilos, respectivamente.

De acordo com dados do Instituto Nacional do Plástico, o lixo brasileiro carrega dois milhões de toneladas de resíduos plásticos ao ano. Caso houvesse 100% de coleta seletiva, todo esse montante poderia ser reciclado. "É claro que seria utópico conseguir esse feito, mas já dá para se ter uma noção de quanto podemos avançar", analisa o diretor superintendente do INP Paulo da Colina.

Há, no entanto, alguns setores em crescente evolução, como é o caso do Policloreto de Vinila (PVC). Tão perseguido pelas organizações ambientalistas, o PVC se destaca na reciclagem dos plásticos com taxa média de crescimento de 20% ao ano. Pelo menos, essa é a constatação de análise das empresas cadastradas no Instituto do PVC, que admite a existência de muitas empresas informais espalhadas Brasil afora, além das oito com registro legal.

Apesar de relativos, esses números projetam uma situação de mercado favorável à indústria de reciclagem. Estudo americano, divulgado pelo instituto do PVC, analisou o potencial de reciclagem da resina, constatando a existência de mais de 90 linhas diferentes de produção de artigos em PVC reciclado. Entre as aplicações e novas possibilidades do uso do material destacam-se artigos para a construção civil, perfis em geral, mangueiras, sifões, eletrodutos, canaletas, solados, calçados, pisos, objetos para brindes ou propaganda, cabos, filmes, espirais para encadernação, passadeiras, peças de mobiliário, forração em geral, vedação e juntas de dilatação. O tema, no entanto, não se esgota. "Existem varias oportunidades a serem exploradas em relação à aplicação do material reciclado, refletindo grande potencial para crescer", ressalta o assessor técnico do Instituto do PVC Miguel Bahiense Neto.

A indústria brasileira produz 700 mil toneladas de resina de PVC ao ano, das quais 80% alimentam o setor de construção civil. Trata-se de resina com longo ciclo de vida: demora cerca de 35 anos para ser descartada. Por esse motivo, seria falho um comparativo entre a quantidade de PVC produzida e a reciclada. No entanto, para se ter uma idéia de como esta desenhado esse cenário, vale destacar: em peso, o plástico representa 7% do resíduo solido urbano, sendo atribuído ao PVC taxa de 0,4%. "E a resina menos presente no aterro sanitário", ressalta Bahiense. Porém tal particularidade não exime a indústria de tratar o rejeito com consciência ecológica e ainda de lucrar com essa oportunidade de negócio.

Esse mercado esta sendo desvendado por dois tipos de empresas. Primeiro, o próprio reciclador de metais, que percebeu as vantagens da reciclagem do PVC e passou a investir em máquinas para então ter consumo cativo da resina, aproveitando o rejeito da recicladora de metais como matéria-prima para a recicladora de PVC. O segundo tipo de empresa fica por conta daquelas acostumadas a comprar o PVC já separado pelos recicladores de metais. Com isso, os processos de separação do plástico do metal passaram a ser aprimorados, promovendo vantagens econômicas e ambientais com o desenvolvimento do mercado de reciclagem de fios e cabos de PVC, por exemplo. Estes, de- vido a características particulares como item de segurança, continuarão a ser fabricados com materiais virgens, mas depois de utilizados, podem ser reciclados e usados em solados, calçados, manoplas, mangueiras e laminados, entre outras aplicações.

Iniciativas próprias

O Instituto do PVC decidiu conhecer melhor o mercado e efetuou um estudo para descobrir quais os nós da indústria de reciclagem. A partir dessa pesquisa constatou que, além da falta de incentivo governamental refletida na tributação do material produzido com plástico reciclado, e da ausência de programas regulares de coleta seletiva, havia outro inimigo: a desinformação.

De acordo com Bahiense, o pessoal tinha muita dificuldade para identificar as resinas durante a triagem, e assim separá-las de forma adequada. Para resolver o problema, o Instituto desenvolveu um quadro explicativo sobre as particularidades do termoplástico e intensificou cursos, palestras e afins, sobre o tema. Essa pratica simples rendeu bons resultados. Conforme diz Bahiense, deu mais agilidade ao reciclador, pois este passou a comprar o fardo com o PVC já separado, otimizando os processos. O programa de separação do PVC começou em comunidades fechadas como a Riviera de São Lourenço, em Bertioga-SP e se estendeu ate regiões mais populosas como o município de Santo André-SP. Até o momento, 150 pessoas foram beneficiadas.

Outra iniciativa do Instituto ficou por conta do estudo "Reciclagem Mecânica do PVC: Uma Oportunidade de Negócio". Resultado de pesquisa realizada por dois especialistas da Universidade de São Paulo - os professores Hélio Wiebeck e Ana Magda Piva -, o trabalho teve como objetivo principal apresentar uma referência para os empresários interessados em associar as vantagens de um empreendimento rentável ao bem estar da sociedade. Registrado em CD-Rom, o estudo amplia, de maneira significativa, as peculiaridades do mercado de reciclagem do plástico. Segundo a pesquisa, por exemplo, em termos de energia e incineração, a reciclagem do PVC foi apontada como uma das mais econômicas. De acordo com o levantamento, não há nenhuma emissão danosa ao meio ambiente ou ao trabalhador durante o processo. Ainda identifica como vantagens a preservação de recursos naturais e a possibilidade de redução de resíduos, diminuindo o volume a ser transportado e tratado, assim como, os custos para as empresas.

Apesar dos avanços, a indústria brasileira ainda não comporta fortes incrementos, sobretudo no quesito tecnologia, atesta Bahiense. Para comprovar, cita como exemplo o processo de reciclagem mecânica do PVC, pelo qual se elimina a etapa de separação previa da resina. trata-se do Vinyloop, novidade desenvolvida por empresa belga. A primeira planta industrial foi instalada na Itália, com capacidade para 10 mil toneladas por ano. "É uma vantagem interessante", afirma Bahiense. No entanto, esse tipo de processo só se torna vantajoso se houver resíduo suficiente para colocar a fabrica em operação, o que não ocorre no caso brasileiro, pelo menos por enquanto.

Morte anunciada

Com a otimização da produção industrial, a tendência aponta para crescente diminuição do resíduo pós-industrial. Consciente dessa realidade, o proprietário da Lumaplastic, de Embú das Artes-SP, Luís Antônio Gonzaga buscou uma alternativa para a obtenção da matéria-prima. Em parceria com o Instituto do PVC, juntou-se ao projeto de coleta seletiva da Riviera de São Lourenço, responsabilizando-se pela absorção de todo PVC ali rejeitado. Trata-se de uma ação isolada, ainda incapaz de suplantar a falta de resíduo para alimentar a em presa, porém representou para Gonzaga uma boa iniciativa. implantado em 1992, o programa de coleta seletiva na Riviera de São Lourenço atende de 2 mil a 3 mil pessoas. Esse número aumenta em época de temporada, quando são registrados 40 mil habitantes.

A Lumaplastic ainda apostou em outra idéia inovadora. Junto com a Faspac, especializada na fabricação de polietileno, a empresa fundou neste ano a H. Plast. Atuando como prestadora de serviços, a empresa recicla o resíduo pós-industrial e o devolve a indústria. "O trabalho é

terceirizado, porque muitas vezes fica muito caro para a empresa reaproveitar seu rejeito" diz Gonzaga.

Por não se tratar de uma indústria, a H. Plast não paga a tributação referente ao material reciclado, apesar de lucrar com esse mercado. "Foi uma brecha que percebemos" analisa Gonzaga. No primeiro semestre, a H. Plast revalorizou em média 20 toneladas por mês de resíduo. Apesar de 2002 não haver terminado, a empresa já duplicou a marca alcançada no primeiro semestre em produção.

Fonte: Plástico Moderno, n.º 335
por Por Renata Pachione.


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