
De móveis a acessórios de moda, peças de plástico conquistam consumidor com formas arrojadas Ainda que os gregos fizessem suas esculturas em mármore, a idéia da maleabilidade já existia na Antiguidade. A própria origem do nome do material vem da palavra grega plastikos, a capacidade de ser moldado. O que antes se restringia a tubos e peças sem graça, hoje é destaque por toda a casa, em móveis, utensílios, acessórios de moda e decoração. A valorização mundial de designers como o francês Philippe Starck e a dupla brasileira irmãos Campana, que entre os anos 80 e 90 começaram a criar peças com esta matéria-prima, fez a indústria mundial ver as novas possibilidades de negócio, agregando valor aos produtos com design moderno e redirecionando esforços para um novo nicho de mercado. Foi o que aconteceu com a Martiplast, a Grendene e a Plajet, todas com origem no segmento de plástico injetado, que hoje colhem os frutos do reposicionamento baseado na originalidade do design. Com três prêmios Housewares & Gift de Design em um ano (um para o revisteiro Lif, outro para os potes Tot, e outro para o organizador Clia), a Martiplast, que nasceu em 1993 fazendo componentes plásticos, hoje colhe os frutos que o investimento em design lhe rendeu. Nos últimos quatro anos, a empresa de Caxias do Sul (RS) triplicou o faturamento e expandiu a produção. "Fazíamos utensílios de cozinha de R$1,99, bem populares e sem identidade própria. Analisando o mercado vi que seria impossível sobreviver sem agregar design diferenciado", conta Juarez Martini, sócio da empresa. Para ele, mais do que a simples elevação de até 15% no preço das peças, o trabalho com design destacou a empresa na mídia e em feiras. "Os benefícios intangíveis são maiores que os tangíveis", garante. O mesmo se deu com a Grendene, que pode ser considerada mais uma indústria de calçados do que plástica, dado o sucesso de produtos como as sandálias Rider e Melissa. Da antiga fábrica de embalagens em Farroupilha (RS) saem mais de 120 milhões de sandálias, que até desfilaram nas passarelas da Fashion Week em parcerias com estilistas como Alexandre Herchcovitch. "As experiências agregam valor de inovação. Mas não se trata de só aplicar design voltado a forma e função, mas como compromisso de sustentabilidade voltada ao negócio, às pessoas e ao meio ambiente", garante Edson Matsuo, responsável pelo departamento de desenvolvimento de produtos da Melissa. Ao completar 25 anos no próximo verão, a empresa vai lançar uma coleção assinada pelos Campana. "Fazemos incursões pelo plástico desde 1993, quando criamos a luminária Estela, mas usávamos peças existentes para criar outra coisa. Eram mangueiras, ralos e infláveis que se transformaram em biombos, luminárias, cadeiras. Mostrávamos as possibilidades do material retratando um processo industrial que ainda não podia tomar aquela peça artesanal em um produto feito em escala", explica Fernando Campana. A parceria com a Grendene, que usará a idéia do Biombo Zig Zag criado em 1995 nas sandálias e bolsas da nova coleção, só prova a viabilidade comercial da proposta. "O trabalho com plástico nasceu para reduzir o custo das peças e tomá-las mais acessíveis", diz Campana, citando o trabalho de outros designers para empresas italianas como Alessi, Kartell e Dríade, para as quais ele mesmo criou peças exclusivas. Já na Plajet, foi o olhar de um designer, Guto Índio da Costa, que trouxe alívio à empresa, ameaçada pelo desacelerado mercado de fitas para vídeo. Buscando nova função para o maquinário, surgiu o ventilador Spirit, ganhador de um IF Design Award – o Oscar do design mundial em Hannover, Alemanha, e dos prêmios Moinho Santista e Ecodesign, em São Paulo. Sem falar no sucesso de vendas. "O trabalho de artistas e designers elevou o status do plástico, antes considerado de segunda categoria. Hoje não há mais preconceito e acredito que no campo dos utilitários, decoração, mobiliário e moda ainda há muito afazer. Design agrega valor aos produtos e fortalece o setor", afirma Francisco de Assis Esmeraldo, presidente do Instituto do PVC, e organizador da primeira mostra "Plasticidades: Plástico + Design". Mas se a indústria brasileira ainda contrata designers para sobreviver, empresas italianas são referência para o mundo do plástico desde a década de 80, quando houve as primeiras parcerias com nomes como Philippe Starck, promovendo o upgrade da matéria-prima. "Víamos a tendência do uso do plástico crescer lá fora, mas só com a abertura do mercado os varejistas passaram a apostar no nosso produto", lembra Daniela Zatti, superintendente da Coza, uma das pioneiras a provar ao brasileiro que copo de plástico com design não era descartável e podia freqüentar as mesas sem fazer feio. "Mas é preciso ficar atento a tendências, formas, cores, texturas, funcionalidade e acabamento. Não pode ser só uma desculpa para aumentar o preço, mas meio de fortalecer a imagem da marca e otimizar a produção", alerta. A receptividade hoje é tal que na loja de decoração Tok & Stok 10% das peças vendidas são de plástico. "O público busca alegria e leveza para sua vida e o plástico permite traduzir esses anseios em peças de cores vibrantes, formas inusitadas, brilhos, transparências e ainda por cima duráveis", conta Ademir Bueno, gerente de apoio técnico da loja. Exemplo de sucesso é o cabide Mosquito, feito por Edson Barone, uma das primeiras peças plásticas da loja em que foi dada maior atenção ao design. "Elegemos uma das peças que mais vendiam na loja e aplicamos design nacional. Resultado: um aumento de 20% nas vendas", diz. Se bem aplicada, uma pequena alteração no design do produto pode gerar bom retorno de vendas e elevar o grau de percepção e valor da marca. Como em 2001, quando a garrafa da água Crystal ganhou formato piramidal do designer Manoel Muller. "Deixando a garrafa sem cara de padaria, elevamos o status do produto e as vendas aumentaram 20%", diz Muller. Mas na hora de mudar, todo cuidado é pouco, ainda mais se for o caso de substituir matéria-prima. "O plástico é mais barato, dá leveza, transparência, idéia de reciclagem e permite criar novos formatos, mas é preciso trabalhá-lo com cuidado para não desvalorizar o produto. Toda mudança deve levar a um upgrade", completa Muller. Fonte:
Revista Valor Setorial - Indústria do Plástico,
Design, pág 36-38, out/04, |