Objetos com
status de arte
Outras notícias 2004
Outros anos
Objetos com status de arte
De móveis a acessórios de
moda, peças de plástico conquistam consumidor com formas arrojadas
 |
Ainda que os gregos fizessem suas esculturas em mármore, a idéia da
maleabilidade já existia na Antiguidade. A própria origem do nome do
material vem da palavra grega plastikos, a capacidade de ser
moldado. O que antes se restringia a tubos e peças sem graça, hoje é
destaque por toda a casa, em móveis, utensílios, acessórios de moda e
decoração.
A
valorização mundial de designers como o francês Philippe Starck e a dupla
brasileira irmãos Campana, que entre os anos 80 e 90 começaram a criar
peças com esta matéria-prima, fez a indústria mundial ver as novas
possibilidades de negócio, agregando valor aos produtos com design moderno
e redirecionando esforços para um novo nicho de mercado.
Foi
o que aconteceu com a Martiplast, a
Grendene e a Plajet, todas com origem no segmento de plástico
injetado, que hoje colhem os frutos do reposicionamento baseado na
originalidade |
| O vaso do designer
Nick Crosbie, de 1986, sucesso na Plasticidades PVC+Design |
do design. Com três prêmios Housewares & Gift de Design em
um ano (um para o revisteiro Lif, outro para os potes Tot, e outro para o
organizador Clia), a Martiplast, que nasceu
em |
| 1993 fazendo componentes plásticos, hoje colhe os
frutos que o investimento em design lhe rendeu. |
Nos
últimos quatro anos, a empresa de Caxias do Sul (RS) triplicou o
faturamento e expandiu a produção. "Fazíamos utensílios de cozinha de R$1,99,
bem populares e sem identidade própria. Analisando o mercado vi que seria
impossível sobreviver sem agregar design diferenciado", conta Juarez
Martini, sócio da empresa. Para ele, mais do que a simples elevação de até
15% no preço das peças, o trabalho com design destacou a empresa na mídia
e em feiras. "Os benefícios intangíveis são maiores que os tangíveis",
garante.
|
O mesmo se deu com a
Grendene, que pode ser considerada mais uma indústria de
calçados do que plástica, dado o sucesso de produtos como as
sandálias Rider e Melissa. Da antiga fábrica de embalagens em
Farroupilha (RS) saem mais de 120 milhões de sandálias, que até
desfilaram nas passarelas da Fashion Week em parcerias com
estilistas como Alexandre Herchcovitch. "As experiências agregam
valor de inovação. Mas não se trata de só aplicar design voltado a
forma e função, mas como compromisso de sustentabilidade voltada ao
negócio, às pessoas e ao meio ambiente", garante Edson Matsuo,
responsável pelo departamento de desenvolvimento de produtos da
Melissa. |
 |
| |
lançamentos da
Melissa para o próximo verão com criação dos irmãos Campana, |
| Ao
completar 25 anos no próximo verão, a empresa vai lançar uma coleção
assinada pelos Campana. "Fazemos incursões pelo plástico desde 1993,
quando criamos a luminária Estela, mas usávamos peças existentes para
criar outra coisa. Eram mangueiras, ralos e infláveis que se transformaram
em biombos, luminárias, cadeiras. Mostrávamos as possibilidades do
material retratando um processo industrial que ainda não podia tomar
aquela peça artesanal em um produto feito em escala", explica Fernando
Campana. |
A
parceria com a Grendene, que
usará a idéia do Biombo Zig Zag criado em 1995 nas sandálias e bolsas da
nova coleção, só prova a viabilidade comercial da proposta. "O trabalho
com plástico nasceu para reduzir o custo das peças e tomá-las mais
acessíveis", diz Campana, citando o trabalho de outros designers para
empresas italianas como Alessi, Kartell e Dríade, para as quais ele mesmo
criou peças exclusivas.
Já
na Plajet, foi o olhar de um designer, Guto Índio da Costa, que trouxe
alívio à empresa, ameaçada pelo desacelerado mercado de fitas para vídeo.
Buscando nova função para o maquinário, surgiu o ventilador Spirit,
ganhador de um IF Design Award – o Oscar do design mundial em
Hannover, Alemanha, e dos prêmios Moinho Santista e Ecodesign, em São
Paulo. Sem falar no sucesso de vendas.
 |
"O
trabalho de artistas e designers elevou o status do plástico, antes
considerado de segunda categoria. Hoje não há mais preconceito e acredito
que no campo dos utilitários, decoração, mobiliário e moda ainda há muito
afazer. Design agrega valor aos produtos e fortalece o setor", afirma
Francisco de Assis Esmeraldo, presidente do Instituto do PVC, e
organizador da primeira mostra "Plasticidades: Plástico + Design".
Mas
se a indústria brasileira ainda contrata designers para sobreviver,
empresas italianas são referência para o mundo do plástico desde a década
de 80, quando houve as primeiras parcerias com nomes como Philippe Starck, promovendo o
|
|
upgrade da matéria-prima. "Víamos a
tendência do uso do plástico crescer lá fora, mas só com a abertura
do mercado os varejistas passaram a apostar no nosso produto",
lembra Daniela Zatti, superintendente da Coza, uma das pioneiras a
provar ao brasileiro que copo de plástico com design não era
descartável e podia freqüentar as mesas sem fazer feio. "Mas é
preciso ficar atento a tendências, formas, cores, texturas,
funcionalidade e acabamento. Não pode ser só uma desculpa para
aumentar o preço, mas meio de fortalecer a imagem da marca e
otimizar a produção", alerta. |
A
receptividade hoje é tal que na loja de decoração Tok & Stok 10% das peças
vendidas são de plástico. "O público busca alegria e leveza para sua vida
e o plástico permite traduzir esses anseios em peças de cores vibrantes,
formas inusitadas, brilhos, transparências e ainda por cima duráveis",
conta Ademir Bueno, gerente de apoio técnico da loja.
Exemplo de sucesso é o cabide Mosquito, feito por Edson Barone, uma das
primeiras peças plásticas da loja em que foi dada maior atenção ao design.
"Elegemos uma das peças que mais vendiam na loja e aplicamos design
nacional. Resultado: um aumento de 20% nas vendas", diz.
Se
bem aplicada, uma pequena alteração no design do produto pode gerar bom
retorno de vendas e elevar o grau de percepção e valor da marca. Como em
2001, quando a garrafa da água Crystal ganhou formato piramidal do
designer Manoel Muller. "Deixando a garrafa sem cara de padaria, elevamos
o status do produto e as vendas aumentaram 20%", diz Muller.
Mas na hora
de mudar, todo cuidado é pouco, ainda mais se for o caso de substituir
matéria-prima. "O plástico é mais barato, dá leveza, transparência, idéia
de reciclagem e permite criar novos formatos, mas é preciso trabalhá-lo
com cuidado para não desvalorizar o produto. Toda mudança deve levar a um
upgrade", completa Muller.

Fonte:
Revista Valor Setorial - Indústria do Plástico,
Design, pág 36-38, out/04,
por Juliana Bianchi.
|