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Coração artificial tem preço acessível

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Coração artificial tem preço acessível

A versatilidade e a resistência das resinas geraram grandes avanços na medicina desde 1940

Um sistema que substitui as funções do coração em pacientes que já não têm como se manter vivos com o órgão natural, mas que ainda não conseguiram sair da fila do transplante. O material, produzido pela Braile Biomédica, indústria de capital nacional localizada em São José do Rio Preto (SP), já está sendo testando em cirurgias experimentais com animais, mas poderá ser uma grande esperança para pessoas que sofrem de males cardíacos irreversíveis. O equipamento tem como componente básico uma bomba - responsável pela assistência ventricular respiratória - totalmente feita em plástico, explica o diretor da empresa, Adalberto Camim.  

Assim como neste sistema, a versatilidade e a resistência das resinas são amplamente utilizadas pela medicina, a área mais nobre de aplicação do plástico. Por ser descartável, relativamente inerte e inócuo o produto foi um dos grandes responsáveis pela evolução em equipamentos e procedimentos médicos a partir dos anos 1940, conforme o diretor do Instituto do PVC, Miguel Bahiense Neto

Ao substituir outros materiais, especialmente os metálicos e os vidros, as resinas foram decisivas para a redução de infecções causadas por contaminação e para a sobrevida de muitos pacientes, a partir das aplicações do material principalmente em cirurgias cardíacas, sendo utilizados em partes dos instrumentos operatórios e até em próteses.

"Existem próteses de coração, que também são compostas por plástico, já sendo implantadas. Entretanto, são muito caras, em torno de US$ 400 mil e ainda não chegaram ao Brasil", diz Camim.  

O plástico está presente nos pisos, paredes e tetos de clínicas e hospitais, nas seringas, nos cateteres, nas bolsas de sangue, nos frascos de soro fisiológico, nas cânulas, entre centenas de aplicações.

Escala e baixo custo

A Braile Biomédica, especializada na fabricação de produtos para a área médica - especialmente para o segmento de cirurgia cardíaca -, tem o plástico como responsável por 70% do total de insumos que utiliza para produzir seus equipamentos. Para Camim, as resinas propiciaram duas grandes vantagens para a medicina: escala e redução dos preços dos produtos, que permitiram o acesso de um maior número de doentes às modernas técnicas cirúrgicas cardiovasculares. "Com as resinas podem ser feitos moldes dos produtos. Assim, obtêm-se rapidez e custo mais baixo no processo de produção", afirma.  

Uma dos mais nobres produtos feitos pela empresa com resinas é a máquina de circulação extracorpórea - composta por bombas que substituem as funções do pulmão e do coração -, fundamental para as cirurgias cardíacas, já que é a responsável pela circulação sanguínea do paciente fora do corpo. Além dos tubos plásticos, a bomba do equipamento que substitui o pulmão é composta inteiramente de resina e descartável. 

A companhia também fábrica dois tipos de próteses implantáveis cardíacas: a válvula biológica de pericárdio bovino e a válvula biológica porcina. Ambas são sustentadas no coração por um equipamento feito totalmente em poliamida - um tipo de resina -, denominado stent, também fabricado pela companhia.

Fundada em 1983, a Braile desenvolveu com tecnologia própria também o stent-graft. Feito com resina, ele é um enxerto para partes de aortas com dissecção.

Segundo Camim, por ano são realizadas no Brasil cerca de 40 mil cirurgias cardíacas com circulação extracorpórea e são feitos 12 mil implantes de válvulas biológicas. "O País está entre os três maiores mercados do mundo nessas áreas, atrás apenas de Estados Unidos e Alemanha", diz. O executivo afirmou que há cerca de sete fábricas no mundo produzindo válvulas e equipamentos de circulação extracorpórea; três delas estão no Brasil e atendem a aproximadamente 95% da demanda interna.

PVC é o mais utilizado

Não existem medidas exatas, mas os especialistas estimam que o setor médico mundial consome quase três milhões de toneladas de resinas por ano. De acordo com Bahiense, do Instituto do PVC, pesquisas européias mostram que 35% dos plásticos utilizados na área de medicina são PVC - resina resultante da mistura de eteno (derivado de petróleo) com cloro -, transformados em aproximadamente 250 milhões de produtos. "Ele é transparente e imita com bastante fidelidade as artérias e veias do corpo humano e também a sua textura se assemelha muito a da pele humana", cita ele, indicando as principais qualidades que impulsionam o uso do material.

Atualmente, está em testes no Instituto do Coração (Incor) de São Paulo - realizados em parceria com o Instituto do PVC -, um tubo de PVC revestido com eparina, uma substância que evita que o sangue coagule no processo cirúrgico. A eparina é geralmente aplicada em pacientes que passam por cirurgias cardíacas com circulação extracorpórea e, após a operação, é retirada do organismo. "O tubo, por onde o sangue circula na máquina, quando eparinizado, permite uma aplicação menor dessa substância no paciente, tornando o procedimento pós-operatório menos traumático", afirma Miguel Bahiense Neto.

No Brasil, não há pesquisas específicas sobre o quanto o setor médico utiliza de PVC, mas Bahiense estima que o percentual do insumo sobre o total de resinas consumidas pela área esteja em linha com o da Europa. Da produção nacional de PVC - cerca de 630 mil toneladas por ano fabricadas apenas por duas companhias, a Braskem e a Solvay Indupa do Brasil -, a área médica deve consumir em torno de 1%, segundo o diretor do Instituto.

De acordo com Massayochi Mario Hociko, gerente do departamento técnico da Karina, empresa com duas fábricas de compostos de PVC em Guarulhos SP, as resinas destinadas para a área médica passam por um processo de composição e têm de ser atóxicas e isentas de materiais pesados, além de contarem com certificados que atestem suas qualidades e aplicação viável para esta finalidade.

Fonte: Gazeta Mercantil - Relatório Gazeta Mercantil - O Plástico na vida das pessoas, 22/6/04,
por Iolanda Nascimento.


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