
Excedente agudo e margens em queda acuam os compostos de PVC O reduto de compostos de policloreto de vinila (PVC) para terceiros dificilmente aguenta incólume outro ano igual a 2002. Afonso Telles, diretor da Dacarto Benvic, fundamenta sua impressão com as margens do segmento postas a pique no último período pela subida nos preços do polímero e insumos coma plastificantes somada à retração da ardem de 15%, perante o movimento de 270-300.000 toneladas em 2001, e a uma ociosidade 30-50% na capacidade nominal. "Um índice bem acima da folga habitual de 15-20%, para assegurar reação rápida aos saltos da demanda", coloca. O excedente indigesto na capacidade, ele interpreta, decorre de investimentos aplicados na expectativa frustrada de estabilidade e crescimento econômico. Mas Telles não entrega os pontos. Aposta na retomada em 2003, por motivos como a substituição de compostos importados forçada pelo câmbio; a volta as compras da formulação pronta por transformadores antes verticalizados na receita e, com a relativa equiparação peso/real, o arrefecimento da ofensiva da concorrência argentina, intensa em determinados momentos de 2002, nas vendas spot de compostos commodities, para atenuar o baque da crônica crise brava em seu país. Nas pegadas do declínio generalizado que descreve, Telles confirma que sua componedora, que corre na pole do mercado, não foi exceção. Operou em 2002 com índice preocupante de ocupação tanto a planta-sede, em Osasco (SP) coma a filial baiana, que totalizam capacidade instalada de 180.000 toneladas ao ano. "As vendas também recuaram perto de 15%", completa. Em sua análise da queda por nicho, Telles julga que a mercado de fios e cabos, o maior filão de compostos de PVC para terceiros, reduziu as compras em 2002 devido ao poder de compra desidratado da população e em razão de movimentos de substituição de materiais. No caso, os fios telefônicos que se bandearam de PVC para polietileno de baixa densidade (PEBD) movidos a custo, ele ilustra. Quanta a calçados, a diretor comenta que o volume de compostos manteve-se estável, mas as margens nas vendas deterioraram em virtude da informalidade que grassa nesse flanco do PVC aditivado. Sopro de embalagens, um nicho hoje menor para esses compostos, até acusou melhora no consumo para frascos de baixas tiragens, nota Telles. Mas essa reação não desequilibrou o negativo balanço geral, tal como, no plana da extrusão rígida, a percebida inclinação de bom punhado de transformadores por comprar o composto antes feito por eles em casa. A conveniência dessa verticalização para os custos de produção é discutível, avalia, mas a pratica demonstra que, em determinadas fases, ao sabor das oscilações da economia, o transformador opta por comprar o composto e desligar seu já amortizado maquinário de formulação. "Com a subida dos insumos e da resina, volta a questão: vale ou não a pena a produção cativa do composto?", deixa no ar Telles. O consenso na indústria de compostos estima acima de 60% o reajuste nos preços domésticos do PVC acumulado ao longo de 2002. Em regra, a reação dos fabricantes e de conformismo com o aumento, tanto por não haver outra saída sob o cambio inibidor de importações como pelo reconhecimento do atrelamento das resinas ao dólar e cotações do petróleo. "A petroquímica é regida por preço internacionais e o peso do dólar agravou-se com a desvalorização do real", sintetiza Rui Chammas, diretor comercial da Unidade Vinílicos da Braskem, pressentindo ao final do ano mais aumentas pela frente, efeito da subida nos preços internacionais no sexto bimestre. Telles encaixa prudente que seus prognósticos de melhora em 2003 não consideram a hipótese da guerra EUA/lraque e suas, seqüelas sabre o barril de petróleo. Maria Marquez Rocha, diretora superintendente da Dacarto Benvic, comenta que, sob retração da demanda, seus investimentos na infra-estrutura industrial restringiram-se a soluções de automações como a adotada na embalamento de compostos nas duas unidades. Por seu turno, o diretor técnico Amilton Dal Poz Almeida observa que, apesar da maré baixa nas vendas, o perfil do seu mix de produção não mudou em 2002. "O composto antichama da família 70º permaneceu o carro-chefe e continuamos desenvolvendo em média 100-150 formulações mensais para aplicações mais específicas".
Com nome feito em compostos para embalagens sopradas e, em complemento, filmes rígidos (para blisters, p.ex.), a Rionil também tateia o terreno para alargar seu raio de ação mas sem sair do PVC aditivado. "Devido, em particular, ao reajuste da ordem de 60% no preço da resina, aliado a dependência expressiva de insumos importados, as margens em compostos para sopro caíram perto de 8% com a impossibilidade de repasse do ônus das matérias-primas aos clientes das receitas", sumariza a diretor superintendente Alain Besse. Conforme ressalta, sua unidade carioca, com potencial mensal para 1.000 toneladas (50 para formulações de filmes) de compostos granulados operou a pleno em 2002. Mas a desempenho 7-8% superior em volume não contrabalançou a alta dos custos, ele lamenta. Quanta às exportações, o dirigente calcula que representavam 10% de suas vendas em 2000 e, dois anos depois, não passam de 3%. "Nosso maior mercada externo, o Mercosul passou para o domínio dos agressivos componedores argentinas", esclarece. Diante desse quadro, raciocina Besse, a saída é prospectar frentes que não a do sopro, está hoje tão degradada que ele não vê mais rivais na área além da Dacarto Benvic. O novo alvo: compostos para PVC flexível, empregado em itens como mangueiras e selantes, na garupa de formulações sob medida obtidas da francesa Atofina, sócia majoritária da Rionil, cuja controle complementar é detido pela Braskem. "O ponto-chave é a aprovação do investimento em nossa capacidade de granulação, gerando potencial para nos consolidarmos em outros mercadas", condiciona o expert, ilustrando com sondagens recentes na raia dos compostos cálcio/zinco para tubos ou formulações para selantes de tampas ou artigos médico-hospitalares como catéter, tubete intravenoso ou balsas de soro e sangue. No seu filão carro-chefe, compostos para frascos soprados, Besse reconhece uma escalada discreta mas regular da demanda nacional. O mercado interno cravava 22.000 toneladas em 2000, ele rememora, saltando para 23.000 em 2001 e 25.000 em 2002, devendo subir a 26.000 até dezembro próximo. O dirigente justifica a trajetória do segmento alegando que "um frasco de pequena tiragem começa, em geral, a ser soprado por extrusão continua com PVC, como se nota em especial no setor de cosméticos e higiene pessoal". No rol de fatores positivos para ascensão dos compostos sopráveis, ele assinala os progressos, mérito de entidades como o Instituto do PVC, na defesa da imagem ambiental de uma resina cujo fim em embalagens era anunciado no mundo nos idos de 1995. Outro argumento animador, insere, é o arrefecimento do impacto provocado pela penetração do polietileno tereftalato (PET) em sopro. Besse admite, a propósito, que a intensidade do avanço do PET em garrafas de água mineral decretou, há anos, a desativação de 85% da capacidade [20.000 toneladas anuais) da Rionil para compostos de PVC em pó. Hoje em dia, porem, ele percebe no mercado uma postura bem menos interessada em alardear o material do frasco. Esse comportamento, explica, é exercido com gestos explícitos, como o do adoçante Zerocal, que mantém oficialmente linhas de frascos em PET e PVC, ou então, mediante ações enrustidas. É o caso, ele solta arisco a nomes, de uma indústria de vinagre que, após trombetear a troca total de PVC por PET em suas garrafas, voltou a comprar este ano compostos da Rionil processados no mesmo molde que identifica os frascos gerados como de poliester. Ainda em sopro, Besse flagra mais um voto pró PVC pela via dos flexíveis. "Um nicho crescente no balanço da Rionil é o fornecimento do composto para o filme transparente sobreposto a frascos translúcidos, como os de xampu, garantindo brilho e realce na impressão". Em meio à ociosidade enervante na capacidade geral dos compostos e aos reajustes quase seguidos nos preços domésticos do PVC, a Cycian fechou com saldo aceitável o seu balanço de 2002, vaticina o diretor industrial Sérgio Adriano Novais. "O mérito cabe ao foco mantido em especialidades como formulações sem metais pesados ou que incorporam cores fora do convencional", ele atribui. A grosso modo, reparte, compostos abocanham 80% do negocio da empresa, completado por masters e filmes shrink e stretch de PVC. Pela sua aval avaliação, a empresa operou no último período com ociosidade abaixo da média, de 15-20%, sua capacidade a cargo de uma planta multipropósito de 800 toneladas mensais em São Paulo e outra de 700, dedicada a compostos de solados no Rio Grande do Sul. "Conseguimos repassar 70-80% dos aumentos recebidos no preço interno do PVC", pondera a diretor. A propósito, compara, o mercado hoje aceita bem melhor a elevação dos preços do polímero que de componentes como estabilizantes. "Pois já reconhece a petroquímica como uma cadeia industrial dolarizada e, portanto, regida por preços internacionais". Novais projeta em 25.000 toneladas mensais a capacidade total para compostos de PVC para terceiros no país, contra uma produção da ordem de 18.000 em 2002. "O desequilíbrio foi causado por expansões do potencial sob a perspectiva não concretizada de crescimento com regularidade". Mas o problema atual da erosão generalizada nas margens não provém dos volumes da superoferta, ele interpreta. "Isso decorre da busca de conciliar os custos de produção do composto com o preço em queda do artefato final produzido com ele". A saída desse enrosco trilhada pela Cycian é a redução de custos fixos e a ênfase em produtos de maior valor agregado. O diretor exemplifica com compostos de PVC de maior resistência química para mangueiras industriais ou, no setor calçadista, tipos transparentes mais baratos que a opção do policarbonato (PC) para saltos femininos ou compostos para apear dos solados microexpandidos os contratipos à base de acetato de etileno vinila (EVA). Ainda em estudo, adianta Navais, segue outra tacada para ferroar uma aplicação clássica aqui dos copolímeros importados de EVA: um composto de PVC para vedante de tampas de carbonatados.
Para o diretor industrial, as oportunidades jazem no terreno do PVC rígido, caso de compostos para substituir madeira em perfis e forros, ou então, tipos para conduítes, caixilhos de tomadas ou mesmo para gabinetes de micros, tirando de cena as importações de acrilonitrila butadieno estireno (ABS), sugere Novais. Outra tendência internacional em que ele põe fé: ascensão por aqui dos compostos bário/zinco deslocando dos tubos os tipos tradicionais base chumbo. "Trata-se de uma substituição gradativa, pois dependente dos investimentos canalizados para o emprego dos compostos desprovidos de metais pesados". O diretor da Cycian reconhece nos tubos um segmento commodity, algemado em essência a custos, mas contrapõe que a diferença dos preços entre os referidos compostos, gritante no passado, "hoje não passa de 3%", projeta. A diminuição de 15% para 5% no IPI, deferida em outubro último para termoplásticos como PVC, traduz para Novais um bem vindo alento aos componedores do material para terceiros. A medida estimula, ele defende, os transformadores verticalizados nas formulações somente por conveniência econômica a comprá-Ias já prontas. "Afinal, a diferença do imposto entre as duas alternativas de suprimento desceu de 7-8% para apenas 2-3%", estima esperançoso o porta-voz da Cycian. Como qualquer folga na nossa megacadeia tributária, a queda no IPI agrada mas não decide o jogo da competitividade, do ângulo da cadeia produtiva como um todo, sustenta Ramon Enrique Corominas, supervisor comercial da PIásticos Ramon, componedora de materiais como PVC e TR e a única do segmento com produção no polo da Zona Franca. "Esperamos por uma reforma tributaria em que os impostos não sejam cumulativos e aplicada ao consumo, não onerando a produção", ele esclarece.
Para amenizar o baque da ociosidade no segmento, Corominas concorda com a visão de Sérgio Novais, da Cycian. A solução para os componedores é abrir mais frentes de mercado, inclusive incentivando transformadores com braço na aditivação de PVC a designar tais encargos e o aprimoramento das receitas aos componedores da área. "Nesse sentido, estabelecemos em 2002 parcerias com indústrias antes verticalizadas no composto e que hoje usufruem nosso know-how com vantagens de custos, caso da fabricante de mangueiras AFA (SP)". Para o porta-voz da Ramon, de 2003 ainda não desvenda as feições, ansiadas pelo segmento de compostos de PVC, de um período de efetiva recuperação de preços. Afinal, alega, aumentos expressivos de materiais oneraram em 2002 as custos dos componedores. "Mas acreditamos que a cadeia petroquímica deverá estar ainda mais atenta aos movimentos internacionais e, em especial, à capacidade de compra doméstica", coloca diplomático Corominas. Confirmada essa hipótese, ele arremata, a Ramon pretende negociar com suas fontes de matérias-primas a partir de uma relação de longo prazo, mas lembrando-as de que no mercado globalizado os ciclos de alta e baixa estão cada vez mais curtos. "A visão da cadeia é, portanto, a única saída para a preservação dos nossos negócios", conclui a supervisor comercial. Fonte: Plásticos em Revista n.º 478 -
dezembro 2002. |
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