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A vida no topo das árvores

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A vida no topo das árvores

Cientistas vão instalar vinte observatórios para estudar a biodiversidade no alto das
florestas – dois deles no Brasil


Bretzel sobre a floresta de Madagáscar: uma base com 400 metros quadrados a 50 metros de altura

Um dos lugares menos conhecidos pela ciência é o topo das árvores nas florestas. Estima-se que 40% das espécies existentes vivam nesse tipo de habitat, e muitas delas jamais descem ao solo. Um grupo de biólogos de dez países começou neste mês uma ambiciosa investigação da biodiversidade existente em meio a folhas e galhos, a uma altura que varia de 65 (na Amazônia) a 90 metros (floresta temperada americana). O projeto prevê a instalação de vinte observatórios científicos no topo das árvores, aonde se chega com guindastes, balões e dirigíveis. Dois desses postos serão no Brasil – um na Floresta Amazônica, nas proximidades de Manaus, e o outro em uma reserva de Mata Atlântica, em Pernambuco. O plano é manter essa rede de observatórios, chamada de Programa de Dossel Global (Global Canopy Programme, em inglês), em operação ininterrupta porvinte  anos.  Além  de  permitirem a  descoberta de  novas  espécies  de insetos  e  animais  e  de plantas  que parasitam as

grandes árvores, as bases serão usadas para estudar a absorção de carbono nas florestas e para monitorar a qualidade do ar do planeta. Dez observatórios desse tipo estão em funcionamento, seis deles em florestas tropicais da Indonésia, Austrália, América Central, Venezuela e Madagáscar.

De certa forma, trata-se de ir aonde nenhum homem chegou antes. Em experiências de biodiversidade, que consistem em usar armadilhas ou pulverizar com inseticidas uma árvore isolada em florestas tropicais, chega a 70% o número coletado de espécies desconhecidas. Ainda assim, não se devem esperar descobertas bombásticas no topo das árvores. O que se encontra nas alturas são principalmente insetos, macacos, preguiças e pássaros. Em uma pesquisa no Peru foram achadas quarenta espécies de formiga numa única árvore. A mais espetacular das plataformas de observação é uma rede em formato de bretzel, levada à copa das árvores por um dirigível. Com estrutura de PVC inflável, cobre uma área de 400 metros quadrados. Uma vez instalada, permite que os pesquisadores passeiem confortavelmente sobre a floresta e coletem de dia e à noite exemplares de plantas e animais inacessíveis para quem escala as árvores a partir do solo. Em outubro, um desses bretzels será usado no Panamá.

Desde o ano passado, o Programa de Dossel Global mantém um curso de três semanas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para treinar pesquisadores brasileiros. Ensina alpinismo e como coletar amostras nas alturas. Doze alunos já se formaram na primeira turma e outros vinte devem ser treinados até o fim do ano. Explorar o topo das árvores é ambição antiga de biólogos e naturalistas. O primeiro a ter algum sucesso em pesquisas nesse tipo de ambiente de difícil acesso foi o irlandês Max Nicholson, fundador da Nature Conservancy e da WWF, duas das principais ONGs ambientalistas. Em 1929, ele usou um canhão para lançar cordas no topo de árvores amazônicas na Guiana. Com as cordas presas aos galhos, ele pôde içar a mais de 50 metros de altura, em cadeirinhas de armar, uma equipe de pesquisadores da Universidade Oxford. Até bem pouco tempo atrás, o estudo do topo das florestas era feito em plataformas construídas nas árvores, às quais se chegava com o uso de cordas. Era possível coletar algumas amostras, mas os  resultados eram bastante limitados porque, uma  vez  no alto, a  mobilidade  dos  pesquisadores

era mínima. "Era como se estivéssemos em um estacionamento subterrâneo de um prédio e todas as coisas interessantes acontecessem na cobertura", compara o biólogo inglês Andrew Mitchell, diretor do Programa de Dossel Global. "Hoje a tecnologia nos dá meios bem melhores para chegar e ficar lá em cima."

 Dirigível usado para descobrir novas espécies: 40% da vida no planeta está no alto das árvores

Fonte: Veja n.° 29 - ano 36 - Ambiente (23/7/03).
Por Daniel Hessel Teich.

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