A vida no topo das árvores
Outras notícias 2003
Outros anos
A vida no topo
das árvores
Cientistas vão
instalar vinte observatórios para estudar a biodiversidade no alto das
florestas – dois deles no Brasil

Bretzel sobre a floresta de Madagáscar:
uma base com 400 metros quadrados a 50 metros de altura |
Um dos lugares menos conhecidos pela
ciência é o topo das árvores nas florestas. Estima-se que 40% das
espécies existentes vivam nesse tipo de habitat, e muitas delas jamais
descem ao solo. Um grupo de biólogos de dez países começou neste mês uma
ambiciosa investigação da biodiversidade existente em meio a folhas e
galhos, a uma altura que varia de 65 (na Amazônia) a 90 metros (floresta
temperada americana). O projeto prevê a instalação de vinte
observatórios científicos no topo das árvores, aonde se chega com
guindastes, balões e dirigíveis. Dois desses postos serão no Brasil – um
na Floresta Amazônica, nas proximidades de Manaus, e o outro em uma
reserva de Mata Atlântica, em Pernambuco. O plano é manter essa rede de
observatórios, chamada de Programa de Dossel Global (Global Canopy Programme,
em inglês), em operação ininterrupta porvinte anos. Além
de permitirem a descoberta de novas espécies
de insetos e animais e de plantas que
parasitam as |
grandes árvores, as bases serão usadas para estudar a
absorção de carbono nas florestas e para monitorar a qualidade do ar do
planeta. Dez observatórios desse tipo estão em funcionamento, seis deles
em florestas tropicais da Indonésia, Austrália, América Central,
Venezuela e Madagáscar. |
De certa forma, trata-se de ir aonde nenhum homem chegou antes. Em
experiências de biodiversidade, que consistem em usar armadilhas ou
pulverizar com inseticidas uma árvore isolada em florestas tropicais, chega
a 70% o número coletado de espécies desconhecidas. Ainda assim, não se devem
esperar descobertas bombásticas no topo das árvores. O que se encontra nas
alturas são principalmente insetos, macacos, preguiças e pássaros. Em uma
pesquisa no Peru foram achadas quarenta espécies de formiga numa única
árvore. A mais espetacular das plataformas de observação é uma rede em
formato de bretzel, levada à copa das árvores por um dirigível. Com
estrutura de PVC inflável, cobre uma área de 400 metros quadrados. Uma vez
instalada, permite que os pesquisadores passeiem confortavelmente sobre a
floresta e coletem de dia e à noite exemplares de plantas e animais
inacessíveis para quem escala as árvores a partir do solo. Em outubro, um
desses bretzels será usado no Panamá.
Desde o ano passado, o Programa de Dossel Global mantém um curso de três
semanas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para treinar
pesquisadores brasileiros. Ensina alpinismo e como coletar amostras nas
alturas. Doze alunos já se formaram na primeira turma e outros vinte devem
ser treinados até o fim do ano. Explorar o topo das árvores é ambição antiga
de biólogos e naturalistas. O primeiro a ter algum sucesso em pesquisas
nesse tipo de ambiente de difícil acesso foi o irlandês Max Nicholson,
fundador da Nature Conservancy e da WWF, duas das principais ONGs
ambientalistas. Em 1929, ele usou um canhão para lançar cordas no topo
de árvores amazônicas na Guiana. Com as cordas presas aos galhos, ele
pôde içar a mais de 50 metros de altura, em cadeirinhas de armar, uma
equipe de pesquisadores da Universidade Oxford. Até bem pouco tempo
atrás, o estudo do topo das florestas era feito em plataformas
construídas nas árvores, às quais se chegava com o uso de cordas. Era
possível coletar algumas amostras, mas os resultados eram bastante
limitados porque, uma vez no alto, a mobilidade
dos pesquisadores |

|
| era mínima. "Era como se estivéssemos em um estacionamento
subterrâneo de um prédio e todas as coisas interessantes acontecessem na
cobertura", compara o biólogo inglês Andrew Mitchell, diretor do Programa de Dossel
Global. "Hoje a tecnologia nos dá meios bem melhores para chegar e ficar
lá em cima." |
Dirigível usado
para descobrir novas espécies: 40% da vida no planeta está no alto das
árvores |
Fonte: Veja n.° 29 - ano 36 - Ambiente (23/7/03).
Por Daniel Hessel Teich.

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